Estamos em setembro, o mês da Bíblia. Neste ano, o tema é o livro de Daniel, e o lema é: “Seu reino jamais será destruído” (Daniel 7,14). Por meio dessa iniciativa da Igreja no Brasil, temos a possibilidade de experimentar as reflexões propostas por ela sobre a fidelidade, a esperança e a resistência em tempos de crise.
“Que o nome de Deus seja bendito de eternidade em eternidade, pois são dele a sabedoria e a força. É ele quem muda tempos e estações, quem depõe reis e entroniza reis, quem dá aos sábios a sabedoria, e a ciência aos que sabem discernir. Ele revela as profundezas e os segredos, ele conhece o que está nas trevas e junto dele habita a luz. A ti, Deus de meus pais, dou graças e te louvo por me teres concedido a sabedoria e a força. Tu me fazes conhecer agora o que de ti havíamos implorado” (Daniel 2,20-23).
Quem foi Daniel? Por que ler o livro dele? Por que não lê-lo? Essa seria a principal pergunta, afinal, o livro tem algo importante a dizer, e é por isso que ele está na Bíblia. A questão é se queremos ouvi-la.
São Jerônimo, padroeiro dos estudiosos das Escrituras, certa vez observou que a ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo. Bom seria se tivéssemos, oportunamente, condições de ler todos os textos bíblicos. Daniel, o herói do livro, não é mencionado em nenhuma outra passagem do Antigo Testamento. No entanto, o nome não era incomum. Um dos filhos de Davi chamava-se Daniel (está no primeiro Livro das Crônicas 3,1); um dos judeus que retornaram do exílio na Babilônia também se chamava Daniel (segundo Esdras 8,2; Neemias 10,7). Mas nenhum desses dois homens pôde ser identificado como o Daniel do nosso livro.
O nome Daniel em hebraico e aramaico significa “Deus julgou” ou “Deus é o meu juiz”. Parece que, desde tempos antigos, na religião da Síria-Palestina, esse nome estava associado a pessoas de virtude notável e sabedoria excepcional.
Sobre a autoria do livro, é uma questão complexa. Os estudiosos concordam, em geral, que o livro de Daniel reflete a mentalidade dos “piedosos”, ou seja, daqueles judeus que seguiam a lei de Moisés rigorosamente em sua visão e perspectiva. Os piedosos são mencionados, expressamente, em 1 Macabeus 2,42 e em 1 Macabeus 7,17.
Daniel não se encontra entre os profetas, mas entre os Escritos. O motivo dessa localização não é claro. Alguns pensam que os rabinos não acreditavam que Daniel fosse um livro profético e que ele não fosse um profeta como Amós, Oséias, Isaías ou Jeremias.
Raramente, atua como profeta e nunca é chamado assim. No Novo Testamento, Jesus faz referência ao profeta Daniel no capítulo 24 do Evangelho de São Mateus, versículo 15. O historiador judeu Flávio Josefo também fala de Daniel como profeta e refere-se ao conteúdo de seu livro como profecias.
Os relatos são narrados em terceira pessoa e tratam de um antigo herói chamado Daniel e seus três companheiros. Por sua fé e fidelidade à lei de Moisés, eles suportam diversas provações entre os gentios, mas, no final, triunfam. A história do cortesão bem-sucedido está no Antigo Testamento, ou seja, a história de José é um bom exemplo. Embora seus irmãos invejosos o vendam como escravo, José, com o tempo, alcança grande prosperidade.
Rubem Alves, em um de seus textos, afirma que a inveja é a doença dos olhos. De alguma forma, nós estamos doentes porque conseguimos ver o progresso dos outros, mas nem sempre conseguimos nos alegrar.
José alcançou grande prosperidade. Alguns detalhes da história de José ecoam nos relatos de Daniel. Assim como José, que era de porte nobre (Gênesis 39,6), Daniel e seus companheiros eram de boa aparência, instruídos em toda sabedoria, conhecedores da ciência e peritos no saber (Daniel 1,4). José recusou-se a cometer adultério com a mulher de seu senhor, que tentara seduzi-lo (Gênesis 39, 9); Daniel recusou-se a contaminar-se com as iguarias e com os vinhos de sua mesa. Como Deus lhe dera sabedoria para interpretar os sonhos do Faraó, José foi nomeado superintendente de todo o Egito (Gênesis 41,1-57). Visto que Daniel foi capaz de interpretar o sonho de Nabucodonosor, o rei o nomeou governador de toda a província da Babilônia (Daniel 2,48).
No que diz respeito à sequência dos reinos e dos reis, Daniel incorpora a tradição popular judaica, apesar de sua inexatidão. Assim, nos relatos, a sequência é Nabucodonosor (capítulos de 1 a 4) e Baltazar (capítulo 5). Na sequência, nós teremos reis da Babilônia: Dario, o Medo; e Ciro, o Persa (do capítulo 6).
Todos nós somos convidados, de alguma forma, a ler o livro de Daniel, mas, sobretudo hoje e amanhã, precisamos ler o capítulo um, para entendermos todo o contexto. Agora, nós vamos entrar numa proposta de leitura espiritual, e eu terei o cuidado de trazer ao seu conhecimento alguns versículos, pois quero provocar a leitura do livro.
É inquestionável que o livro de Daniel trazia uma mensagem profunda e significativa para os judeus do século II a.C. Mas em que isso nos diz respeito? O que o livro significa para os cristãos que se esforçam por permanecer fiéis aos seus compromissos espirituais e morais e por viver sua fé no mundo real e atual?
Daniel não fala sobre o nosso tempo, mas fala ao nosso tempo. O livro não fornece uma previsão do futuro, mas um modelo ou exemplo de como Deus havia entrado na história dos leitores por um lado; e, por outro lado, como esse mesmo Deus quer estar presente na vida dos crentes de hoje.
Daniel pode falar conosco, com nossas vidas e com aquilo que é significativo para nós hoje. Mas, ao mesmo tempo, precisamos levar a sério o fato de que Daniel também possui uma orientação voltada para o futuro. Nós precisamos viver a vida presente com a responsabilidade do tempo presente para que venhamos a preparar a nossa vida para o futuro. O presente depende das nossas esperanças.
É um livro para as gerações futuras. Como observou certa vez Anthony de Mello, “A distância mais curta entre um ser humano e a verdade é uma história”. Podemos colocar o nosso coração à disposição do livro de Daniel para que Deus fale ou continue a falar ao nosso coração.
A história de Daniel, assim como os apocalipses, aborda precisamente a questão do sentido em um mundo caótico. A história dos três judeus na fornalha ardente (capítulo 3) também era popular, pois simbolizava a ressurreição dentre os mortos.
Concluímos esta primeira reflexão com duas perguntas: Qual é o seu mundo caótico? E onde você e eu precisamos viver a ressurreição?
O Senhor esteja convosco. Ele está no meio de nós. Abençoe-vos Deus Todo-Poderoso: Pai, Filho e Espírito Santo. Amém.
Origem do mês da Bíblia
Todo ano, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil propõe a leitura de algum livro durante os dias do Mês da Bíblia e, neste ano, você é convidado a participar dessas reflexões aqui na Canção Nova. Monsenhor Jonas Abib sempre ensinou a importância da perseverança na leitura diária da Palavra de Deus. Pensando nisso, foi produzida uma série de vídeos para você se unir a toda a Igreja do Brasil nessa reflexão durante os 30 dias do Mês da Bíblia, às 07h, aqui no Portal Canção Nova ou no YouTube da Canção Nova.
O Mês da Bíblia, celebrado em setembro pela Igreja Católica no Brasil, foi instituído em 1971 e, desde então, tornou-se uma tradição consolidada. A iniciativa nasceu do espírito do Concílio Vaticano II, que incentivou a aproximação dos fiéis com a Sagrada Escritura. A escolha de setembro está relacionada à memória de São Jerônimo, comemorado no dia 30, reconhecido como o tradutor da Bíblia para o latim.
São Jerônimo
Jerônimo foi uma personalidade célebre de seu tempo. Sua capacidade intelectual é demonstrada pela vasta quantidade de textos escritos e traduzidos por ele. Com absoluta certeza, seu trabalho mais conhecido é a Vulgata, ou seja, uma versão da Bíblia em latim. Histórias antigas, quando recontadas com frequência, terminam por receber novos elementos que, por vezes, acrescentam, abreviam ou modificam a história original. Por ser este o mês da Bíblia, resolvemos abordar a questão da Vulgata, juntamente com todo o trabalho realizado por São Jerônimo ao traduzi-la.
Ordenado sacerdote em 379 d.C., São Jerônimo acompanhou o Bispo Paulino a um concílio regional em Roma. Nesse tempo, foi apresentado ao Papa Dâmaso como um exegeta e profundo conhecedor das línguas bíblicas. Por causa da clareza de suas ideias e grande conhecimento, o Pontífice o escolheu para ser seu secretário e, em 382 d.C., confiou-lhe a incumbência de revisar uma antiga tradução dos quatro Evangelhos em latim. Ele concluiu esse trabalho antes da morte do Papa Dâmaso (11/12/384), e acrescentou também uma versão dos Salmos, traduzida do texto grego, que ficou conhecida como Septuaginta.

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